Estou de volta das férias,
recauchutada em termos. Foram semanas muito intensas. Fiz com a minha família
um tour pelo país de origem do meu marido, a Grécia, mas deixei a Alemanha com
o coração na mão. A proprietária da casa onde vivo, vizinha de porta,
estava agonizando. É bem verdade que ela já estava com 88 anos, mas era
aquele tipo de anciã com ótima qualidade de vida, a gente só a imaginava
morrendo mansamente no sono.
Foi um linfoma fulminante,
entre diagnóstico e falecimento decorreram exatas 3 semanas. Pelo menos
ainda pudemos nos abraçar e agradecer mutuamente pelo convívio bastante
harmonioso nos últimos 10 anos. Soube, através da filha, que durante uma semana
ela quis se despedir pessoalmente de todos que lhe eram importantes, foi uma
romaria aqui nessa casa. Na hora da extrema-unção a Frau D, que era luterana,
se queixou de que o pastor estava lendo os salmos com a voz muito trêmula,
pedindo para que os lesse de novo. Isso resume bem o seu jeito lúcido e
resoluto, de boa professora, em todos os sentidos, até o fim.
Uma pequena homenagem, uma cena do filme Gadjo dilo,de Tony Gatlif (1997), acho que ela ia gostar:
http://www.youtube.com/watch?v=R3rdN4E5iwU
Falar dos vários encantos
gregos me leva a reproduzir alguns clichês e lugares-comuns aqui, mas neste
momento preciso deles como um bálsamo. Gostei muito poder escapar das chuvas
que caracterizam o verão alemão e ser envolvida pelo calor extremo, quase seco
e sem nuvens, com cigarras e grilos alucinados. A auto-estrada que liga as
montanhas no noroeste da Macedônia a Tessalonica (em português há várias formas de grafia
para a segunda maior cidade do país, optei por essa) continua intacta, trazendo
confortavelmente os mais abastados entre a população dos Bálcãs para férias a
beira-mar, na península de Chalkidiki.
Pessoas bonitas, bronzeadas
e sorridentes, muitas famílias a passeio, todos relaxando e se divertindo entre
vários idiomas e etnias. As frutas não podiam estar mais doces, o ar mais puro,
a água mais transparente e quente! Delírio mediterrâneo num país se afundando,
sensação de estar numa ilha da fantasia, claro que sou remetida ao Brasil da
minha infância e adolescência.
E eis uma anedota
particular que bem caracteriza a situação da Europa atualmente: um casal de
conhecidos, ele libanês, ela grega, ele se queixando que era um pé-frio.
Afinal, havia deixado seu país por causa da guerra, indo trabalhar na embaixada
do Líbano na Alemanha Oriental. Chegando lá, o muro caiu. Se casou e foi morar
com a esposa em Atenas, trabalhando num banco, aí comecou a crise do euro.
Nisso o genro dele, que era holandês, interrompeu: êpa, sogrinho, não vai
inventar de ir morar lá na Holanda, senão do que jeito que você dá azar, os
diques acabarão se rompendo...
Destoando totalmente da
capacidade de rir de si mesmos, nos deparamos num balneário perto de Atenas com
uma sucursal do partido nazifascista grego Aurora Dourada. Na varanda estavam
reunidos vários tipos musculosos e duas moças de cabelos oxigenados, todos com um sorriso
perturbado à la Breivik, arrotando agressividade. Recentemente o porta-voz
deles, durante um debate televisivo, jogou água no rosto duma deputada e depois
avançou para dar sopapos numa outra, ao ser indagado sobre um processo a que
está respondendo. Uma atleta grega, que apoia abertamente esse leão-de-chácara,
andou tuitando na semana passada um deboche contra africanos. Ainda bem que o
comitê olímpico grego reagiu prontamente, excluindo-a da equipe que foi a
Londres.
Alguns gregos elegeram
esses fascistas à espera de soluções fáceis à altura da burrice deles, em
atitude de protesto contra os políticos dos dois grandes partidos que vêm se
revezando há décadas por lá, numa política fisiologista que lembra o
coronelismo do nordeste brasileiro. Coronelismo aliás que encontra paralelo
também no chamado caciquismo espanhol. Há algumas semanas, durante um anúncio
de corte ao auxílio desemprego, uma deputada do PP, filha de um cacique, gritou
da tribuna: Que se f.... Infelizmente isso resume a atitude de muitos europeus
diante da crise, arrogantes e ignorantes.
Uma psicanalista alemã,
Margarete Mitscherlich, que faleceu este ano, se tornou célebre ao escrever um
livro sobre a incapacidade da sociedade alemã em reelaborar através do luto o
seu passado nazista. Quem ler Ansichten eines Clowns/Opiniões de um
palhaço, de Heinrich Böll, entende o que ela quer dizer. Aliás, boa parte
da Europa (Old Europe, como dizia o ministro da guerra de George Bush) padece
desse estarrecimento e alienação em relação ao fascismo e outras merdas que voltaram
a assolar cada vez mais o continente. Enfim, são de uma resistência obtusa,
para usar meus rudimentos de psicanálise.
A propósito, saiu uma vaga de
emergência para mim num conceituado analista aqui na minha cidade. Me sinto
como se tivesse acertado numa loteria.
Nenhum comentário:
Postar um comentário