30 de jul. de 2012

Macedônia de sentimentos

Estou de volta das férias, recauchutada em termos. Foram semanas muito intensas. Fiz com a minha família um tour pelo país de origem do meu marido, a Grécia, mas deixei a Alemanha com o coração na mão. A proprietária da casa onde vivo, vizinha de porta, estava agonizando.  É bem verdade que ela já estava com 88 anos, mas era aquele tipo de anciã com ótima qualidade de vida, a gente só a imaginava morrendo mansamente no sono.

Foi um linfoma fulminante, entre diagnóstico e falecimento decorreram exatas 3 semanas. Pelo menos ainda pudemos nos abraçar e agradecer mutuamente pelo convívio bastante harmonioso nos últimos 10 anos. Soube, através da filha, que durante uma semana ela quis se despedir pessoalmente de todos que lhe eram importantes, foi uma romaria aqui nessa casa. Na hora da extrema-unção a Frau D, que era luterana, se queixou de que o pastor estava lendo os salmos com a voz muito trêmula, pedindo para que os lesse de novo. Isso resume bem o seu jeito lúcido e resoluto, de boa professora, em todos os sentidos, até o fim.

Uma pequena homenagem, uma cena do filme Gadjo dilo,de Tony Gatlif (1997), acho que ela ia gostar:

http://www.youtube.com/watch?v=R3rdN4E5iwU


Falar dos vários encantos gregos me leva a reproduzir alguns clichês e lugares-comuns aqui, mas neste momento preciso deles como um bálsamo. Gostei muito poder escapar das chuvas que caracterizam o verão alemão e ser envolvida pelo calor extremo, quase seco e sem nuvens, com cigarras e grilos alucinados. A auto-estrada que liga as montanhas no noroeste da Macedônia a Tessalonica (em português há várias formas de grafia para a segunda maior cidade do país, optei por essa) continua intacta, trazendo confortavelmente os mais abastados entre a população dos Bálcãs para férias a beira-mar, na península de Chalkidiki. 

Pessoas bonitas, bronzeadas e sorridentes, muitas famílias a passeio, todos relaxando e se divertindo entre vários idiomas e etnias. As frutas não podiam estar mais doces, o ar mais puro, a água mais transparente e quente! Delírio mediterrâneo num país se afundando, sensação de estar numa ilha da fantasia, claro que sou remetida ao Brasil da minha infância e adolescência.  

E eis uma anedota particular que bem caracteriza a situação da Europa atualmente: um casal de conhecidos, ele libanês, ela grega, ele se queixando que era um pé-frio. Afinal, havia deixado seu país por causa da guerra, indo trabalhar na embaixada do Líbano na Alemanha Oriental. Chegando lá, o muro caiu. Se casou e foi morar com a esposa em Atenas, trabalhando num banco, aí comecou a crise do euro. Nisso o genro dele, que era holandês, interrompeu: êpa, sogrinho, não vai inventar de ir morar lá na Holanda, senão do que jeito que você dá azar, os diques acabarão se rompendo...

Destoando totalmente da capacidade de rir de si mesmos, nos deparamos num balneário perto de Atenas com uma sucursal do partido nazifascista grego Aurora Dourada. Na varanda estavam reunidos vários tipos musculosos e duas moças de cabelos oxigenados, todos com um sorriso perturbado à la Breivik, arrotando agressividade. Recentemente o porta-voz deles, durante um debate televisivo, jogou água no rosto duma deputada e depois avançou para dar sopapos numa outra, ao ser indagado sobre um processo a que está respondendo. Uma atleta grega, que apoia abertamente esse leão-de-chácara, andou tuitando na semana passada um deboche contra africanos. Ainda bem que o comitê olímpico grego reagiu prontamente, excluindo-a da equipe que foi a Londres.

Alguns gregos elegeram esses fascistas à espera de soluções fáceis à altura da burrice deles, em atitude de protesto contra os políticos dos dois grandes partidos que vêm se revezando há décadas por lá, numa política fisiologista que lembra o coronelismo do nordeste brasileiro. Coronelismo aliás que encontra paralelo também no chamado caciquismo espanhol. Há algumas semanas, durante um anúncio de corte ao auxílio desemprego, uma deputada do PP, filha de um cacique, gritou da tribuna: Que se f.... Infelizmente isso resume a atitude de muitos europeus diante da crise, arrogantes e ignorantes.  

Uma psicanalista alemã, Margarete Mitscherlich, que faleceu este ano, se tornou célebre ao escrever um livro sobre a incapacidade da sociedade alemã em reelaborar através do luto o seu passado nazista. Quem ler Ansichten eines Clowns/Opiniões de um palhaço, de Heinrich Böll, entende o que ela quer dizer. Aliás, boa parte da Europa (Old Europe, como dizia o ministro da guerra de George Bush) padece desse estarrecimento e alienação em relação ao fascismo e outras merdas que voltaram a assolar cada vez mais o continente. Enfim, são de uma resistência obtusa, para usar meus rudimentos de psicanálise.

A propósito, saiu uma vaga de emergência para mim num conceituado analista aqui na minha cidade. Me sinto como se tivesse acertado numa loteria.

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