2 de jul. de 2012

Samba da paciente doida


Gato escaldado tem medo de água fria. Depois da péssima experiência com os ginecologistas trapalhões e da porrada recibida lá na radiologista, me deu um estalo e resolvi tratar meu caso com bambambãs, decidindo fazer a biópsia diretamente no Brustzentrum/centro da mama, da clínica ginecológica da Universidade de Heidelbergue. Em 2007 havíamos ido à clínica de pneumologia, para escutar um segundo parecer no caso do meu marido, e tivéramos uma excelente impressão. Desta vez também esperávamos ter batido à porta certa, mas nos deram uma consulta só para o dia 28 de abril. Não éramos os únicos a pensar em Heidelbergue como um centro de excelência, ficamos cruzando os dedos para que não fosse muito tarde.

Tenho a perfeita consciência de que eu, uma reles paciente classe média-média, estou sendo atendida num dos sistemas públicos de saúde mais desenvolvidos do planeta, no entanto há também falhas que se revelam quando somos atropelados por um cometa-câncer. Vou relatar algumas dessas experiências ao longo dos últimos meses, mas não quero ficar só me lamentando.
Estou passando pelas mãos de dezenas de especialistas, quero também poder descrever o que há de positivo nas áreas da medicina, enfermagem, psicologia e assistência social deste país, que durante tantíssimos anos de vacas gordas e magras tem sido minha morada constante. Acho que vale a pena contar aqui o que funciona no que ainda resta do sistema de bem-estar social alemão, mesmo depois de algumas décadas de devastação neo-liberal. Os cortes na saúde, li recentemente, começaram já no início dos anos 70!
 O que vier eu traço - Alvaiade/Zé Maria (1926)

Quando eu canto meu sambinha batucada,
A turma fica abismada com a bossa que eu faço,
Faço e não me embaraço,
E não há tempo,
Faço meu contra-tempo, dentro do compasso,
Quem não tiver o ritmo na alma,
Entretanto com mais calma,
Vai gostar do que eu faço,
Samba-canção, samba de breque e batucada,
Para mim não é nada, o que vier eu traço.
Bis

Não tenho veia poética,
Mas canto com muita tática,
Não faço questão de métrica,
Mas não dispenso a gramática,
Não gravo abaixo da música,
Nem mesmo sendo sinfônica,
Procuro tornar simpática,
A minha voz microfônica.
Bis...

Na Wikipedia descobri que um dos autores desse samba, Alvaiade, também batalhou pela sobrevivência, só que num plano bem mais básico, a luta do sambista pobre pra botar comida no prato. Aqui, na mais que bem nutrida Alemanha do século 21, o buraco é diferente.O título do samba funciona para mim como um grito de resistência depois que virei, a contra-gosto, uma paciente profissional. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário