2 de jul. de 2012

11 de abril de 2011


Minha Fukushima pessoal começou na sala de espera de uma clínica radiológica, numa outra linda manhã de primavera (pelo menos isso pra compensar). Mais uma vez o maridão fez questão de me acompanhar, ainda bem!
Fui levada a uma salinha, me despi e fiz a mamografia com uma técnica assistente, não doeu nada. Depois fui levada a uma outra sala de espera, me lembro de ter lido uma Spiegel inteira, esperei bastante. Aí fui levada de volta à salinha, tive que voltar a me despir e esperar uns 15 minutos. Comecei a sentir um pouco de claustrofobia e a tremer, pena que o Vascaíno ficou lá fora, pensei.
A radiologista me chamou, uma senhora de uns 60 anos, pediu para me deitar perto de um aparelho de ultrassonografia e enquanto eu fazia o movimento de me estirar, disse assim de sopetão: Es sieht nicht gut aus/Não tem boa aparência. Emudeci, queria proteger meu corpo com as mãos, mas já estava estendida, a médica imediatamente comecou a fazer a ultrassonografia e a falar em microcalcário espalhado pela mama direita, dois tumores. Ela continuou dizendo que ia escrever um relatório para o ginecologista, eu tinha que ir lá correndo, e que blablablá, e eu fazendo que sim com a cabeça, não consegui dizer uma palavra!

Saí da sala de exame com o mundo girando em torno a um caixão imaginário, e era eu que estava morta lá dentro. A radiologista foi simplesmente brutal na (in)comunicação comigo, eu estava despreparada para tanta falta de sensibilidade, e tive essa reação que me faz tanto mal, me calei. Alcancei cambaleante a outra sala de espera, lotada de pacientes, onde estava Vascaíno, tentei olhar pra ele sem demostrar tudo o que estava sentindo naquele momento, mas já devia estar muito pálida. Ele segurou as minhas mãos, ficamos esperando o tal relatório.
O meu médico ginecologista nos atendeu imediatamente, começou a explicar as muitas possibilidades de tratamento. Ele tentou ser informativo, mas não foi nem um pouco empático, poderia ao menos ter fingido olhar a mamografia, ou dar um tapinha nas costas, mas nem isso! Tinha que procurar imediatamente o centro de senologia da clínica geral da nossa cidade, fomos lá direto marcar a biópsia, me deram uma consulta para uma semana depois.

Nesse dia o mundo continuava a girar e meu cortejo não passava. Já era hora de ir buscar nosso filho, 7 anos, na escola. Ele percebeu os nossos semblantes e perguntou o que a gente tinha. Desconversamos e fomos ao centro da cidade almoçar. Só ele comeu. Comecei a sair do meu torpor ao me lembrar da primeira pessoa pra quem liguei, quando meu marido havia sido diagnosticado com o tumor dele, dando mil dicas sobre o que fazer, o que considerar num momento tão desesperador, minha querida amiga B. Uns anos antes ela havia salvado a vida do pai, que havia sido mal diagnosticado no seu país de origem com um tumor no intestino, trazendo-o à Alemanha para tratamento. A minha amiga,  professora secundária, e seu marido, administrador de empresas, se tornaram forçosamente expertos na comunicação com os médicos e decidiam o que o pai/sogro devia fazer. Ele vive muito bem.

Outra vez esse casal amigo se desdobrou em desvelo conosco. Que eu não ia morrer agora, que eu ia superar o tratamento porque era tão amada, que um câncer não é igual a outro câncer, que nós aguardássemos o resultado da biópsia para decidir com calma que rumo tomar. Minha amiga ainda recordou uma frase que eu havia dito umas semanas antes, em tom de brincadeira, de que a gente ainda ia morar juntas num asilo, quando fôssemos bem velhinhas, porque nós nos conhecemos dos tempos de casa de estudante universitário, compartilhando banheiro e cozinha, choros e risos, e pensamos que seria muito divertido repetir isso no outono das nossas vidas. Essas e tantas outras palavras tão amáveis de todos os amigos (ainda houve os telefonemas para Madame R, J, X e N), o abraço e o aperto de mão do meu marido, e a proximidade dos meus filhos foram o bálsamo que eu precisei pra elaborar aquele dia e suportar a espera pela biópsia.

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