Minha Fukushima pessoal começou na sala de espera de uma clínica radiológica,
numa outra linda manhã de primavera (pelo menos isso pra compensar). Mais uma
vez o maridão fez questão de me acompanhar, ainda bem!
Fui levada a uma salinha, me despi e fiz a
mamografia com uma técnica assistente, não doeu nada. Depois fui levada a uma
outra sala de espera, me lembro de ter lido uma Spiegel inteira, esperei
bastante. Aí fui levada de volta à salinha, tive que voltar a me despir e
esperar uns 15 minutos. Comecei a sentir um pouco de claustrofobia e a tremer,
pena que o Vascaíno ficou lá fora, pensei.
A radiologista me chamou, uma senhora de uns 60
anos, pediu para me deitar perto de um aparelho de ultrassonografia e enquanto
eu fazia o movimento de me estirar, disse assim de sopetão: Es sieht nicht gut
aus/Não tem boa aparência. Emudeci, queria proteger meu corpo com as mãos, mas
já estava estendida, a médica imediatamente comecou a fazer a ultrassonografia
e a falar em microcalcário espalhado pela mama direita, dois tumores. Ela
continuou dizendo que ia escrever um relatório para o ginecologista, eu tinha
que ir lá correndo, e que blablablá, e eu fazendo que sim com a cabeça, não
consegui dizer uma palavra!
Saí da sala de exame com o mundo girando em torno a um caixão imaginário, e era eu que estava morta lá dentro. A radiologista foi simplesmente brutal na (in)comunicação comigo, eu estava despreparada para tanta falta de sensibilidade, e tive essa reação que me faz tanto mal, me calei. Alcancei cambaleante a outra sala de espera, lotada de pacientes, onde estava Vascaíno, tentei olhar pra ele sem demostrar tudo o que estava sentindo naquele momento, mas já devia estar muito pálida. Ele segurou as minhas mãos, ficamos esperando o tal relatório.
O meu médico ginecologista nos atendeu
imediatamente, começou a explicar as muitas possibilidades de tratamento. Ele
tentou ser informativo, mas não foi nem um pouco empático, poderia ao menos ter
fingido olhar a mamografia, ou dar um tapinha nas costas, mas nem isso! Tinha
que procurar imediatamente o centro de senologia da clínica geral da nossa
cidade, fomos lá direto marcar a biópsia, me deram uma consulta para uma semana
depois.Saí da sala de exame com o mundo girando em torno a um caixão imaginário, e era eu que estava morta lá dentro. A radiologista foi simplesmente brutal na (in)comunicação comigo, eu estava despreparada para tanta falta de sensibilidade, e tive essa reação que me faz tanto mal, me calei. Alcancei cambaleante a outra sala de espera, lotada de pacientes, onde estava Vascaíno, tentei olhar pra ele sem demostrar tudo o que estava sentindo naquele momento, mas já devia estar muito pálida. Ele segurou as minhas mãos, ficamos esperando o tal relatório.
Nesse dia o mundo continuava a girar e meu cortejo não passava. Já era hora de ir buscar nosso filho, 7 anos, na escola. Ele percebeu os nossos semblantes e perguntou o que a gente tinha. Desconversamos e fomos ao centro da cidade almoçar. Só ele comeu. Comecei a sair do meu torpor ao me lembrar da primeira pessoa pra quem liguei, quando meu marido havia sido diagnosticado com o tumor dele, dando mil dicas sobre o que fazer, o que considerar num momento tão desesperador, minha querida amiga B. Uns anos antes ela havia salvado a vida do pai, que havia sido mal diagnosticado no seu país de origem com um tumor no intestino, trazendo-o à Alemanha para tratamento. A minha amiga, professora secundária, e seu marido, administrador de empresas, se tornaram forçosamente expertos na comunicação com os médicos e decidiam o que o pai/sogro devia fazer. Ele vive muito bem.
Outra vez esse casal amigo se desdobrou em desvelo conosco. Que eu não ia morrer agora, que eu ia superar o tratamento porque era tão amada, que um câncer não é igual a outro câncer, que nós aguardássemos o resultado da biópsia para decidir com calma que rumo tomar. Minha amiga ainda recordou uma frase que eu havia dito umas semanas antes, em tom de brincadeira, de que a gente ainda ia morar juntas num asilo, quando fôssemos bem velhinhas, porque nós nos conhecemos dos tempos de casa de estudante universitário, compartilhando banheiro e cozinha, choros e risos, e pensamos que seria muito divertido repetir isso no outono das nossas vidas. Essas e tantas outras palavras tão amáveis de todos os amigos (ainda houve os telefonemas para Madame R, J, X e N), o abraço e o aperto de mão do meu marido, e a proximidade dos meus filhos foram o bálsamo que eu precisei pra elaborar aquele dia e suportar a espera pela biópsia.
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