1 de jul. de 2012

Eu sou neguinha?

O meu guru na realidade é o Gil, mas escolhi esse nick porque gosto muito dessa canção do Caetano, me identifico mesmo, ainda mais na interpretação da Vanessa da Mata (que sereia, talvez por isso me lembre a Clara Nunes. Ah, a Vanessa a homenageia na composição Meu aniversário, ambas tem mesmo algo a ver!).

www.clipfish.de › MusikvideosVanessa Da Mata

Bem, voltando à minha configuração, apesar da canção ter sobretudo um forte apelo metafísico para mim, quero aproveitar o título apenas para descrever meu novo look, tenho agora cabelo curtíssimo e muito mais encrespado por causa da químio. Os amigos que não são brasileiros me acham parecida com a Hale Berry, só que assim uns 15 kg mais, digamos, encorpada, e com um tom de pele branco azedo a la Michael Jackson no final da carreira, rá rá! Também pudera, depois de 20 anos de frio europeu, não tem bronzeado que aguente. Já os brasileiros vêem os meus olhos puxadinhos e reconhecem o sangue precabralino correndo em minhas veias.

Sou um coquetel nordestino que ainda bebê foi se instalar com os pais muito jovens no Rio de Janeiro. Tenho algumas raízes soltas em Recife e Olinda, Fortaleza e São Luís do Maranhão, e um quê de Quixadá e Belém. Mas até hoje ando mesmo é com saudade da infância no bairro da Urca, com a Guanabara à frente e o Pão de Açúcar às costas, é só fechar os olhos e escuto o barulho dos aviões da ponte aérea aterrissando e decolando do Santos Dumont, parecendo fazer a baía vibrar.

Também posso sentir o calor imenso daquele famoso penhasco marrom e verde escuro no topo, tão próximo que dava medo dos deslizamentos. Esse calor nos obrigava às vezes a dormir no chão, e enlouquecia as cigarras e as baratas cascudas. Já o inverno era de uma respeitável frescura, a pedra acumulava umidade e uma leve névoa pairava sobre a baía, tanto que para ir brincar na quermesse junina era necessário vestir às vezes um puloverzinho.

Desculpem o pensamento um tanto fútil, mas ele me persegue. Cresci achando que o resto do mundo era parecido com essa irretocável paisagem de cartão postal, tendo como pano de fundo água, mato e pedra por todos os lados, tudo de uma intensidade tropical delirante, exaltando cores, cheiros e ruídos: podem imaginar quantas decepções eu tive desde então?

www.youtube.com/watch?v=aK-k0SstIJQ

Sei, 1967 a 1976 foi além do mais a época braba da ditadura militar, do "ame-o ou deixe-o", por isso mesmo talvez, que contradição cruel, minha infância tenha sido quase uma delícia: aquela minipenínsula que é a Urca é cercada pelo forte, pelas escolas do exército e da marinha, e pelo clube do círculo militar. As crianças brincavam muito na calçada, íamos pescar e nadar ali mesmo em frente, nas pedras que protegiam a muralha da Avenida Portugal. As portas dos apartamentos ficavam só encostadas, e a criançada tinha medo não dos "subversivos", senão dos bêbados e dos ônibus desenfreados que passavam pela porta do nosso prédio.

A minha escola era frequentada também por filhos de oficiais que moravam no forte, me lembro de muita gente gaúcha, possivelmente essas famílias eram promovidas pro Rio de Janeiro para servir a um dos ditadores de bombacha (não tenho nada contra a terra do analista de Bagé, mas é que o Brasil nunca mereceu tanta terapia do joelhaço). Os pais, me arrepio só de pensar hoje, iam fazer intercâmbio nos EUA. Me vem a mente o Estado de Sítio, do Costa Gravas, e fico imaginando se não iam também aprender a torturar os presos políticos de maneira mais eficiente.

Xô, pra afastar esses fantasmas, só recordando o Chacrinha, a quem tive o privilégio de assistir algumas vezes nas transmissões ao vivo do estúdio da TV Tupi, no antigo Cassino da Urca. Durante anos alimentei a fantasia de ser chacrete e não posso esquecer alguns dos seus chavões: Troféu abacaxi (pra ditadura e pro câncer)! Quem não se comunica, se trubica! 


letras.mus.br/gilberto-gil/16138/

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