2 de jul. de 2012

O pior cego



“ ...porque não há dúvida de que o homem está cego, a agnosia, sabemo-lo, é a incapacidade de se reconhecer o que se vê...”. José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira.

A cegueira como metáfora usada por Saramago me veio muitas vezes à mente nos últimos meses. Também a frase bíblica de separar joio do trigo pode resumir as provas de relacionamento pelas quais passa um casal com 2 crianças pequenas, num tremendo sufoco, num país de poucos amigos e nenhum parente por perto. A nível pessoal, em termos de falta de solidariedade, sofremos algumas decepções inenarráveis aqui, até hoje não vejo o menor sentido transcedental nessas experiências.

Aliás, frase de efeito que detesto é a tal "história de superação", arghhh!!! E que fique bem claro para quem estiver lendo estas linhas: toda e qualquer missão messiânica vai dar em ouvidos moucos. Xô, se quiserem, podem rezar por minha alma, mas o façam em silêncio, aqui não é a praia de vocês! Tampouco dou bola aos seguidores da linha esotérica de nenhum matiz, câncer não é provocado por pensamento negativo, ninguém escolhe ser atropelado por um bonde-câncer, ainda menos com filho pra criar. Depois da miséria humana que vi e que vivi, definitivamente, estou vacinada pelo mais profundo materialismo.

Agora vamos ao trigo. Sim, há pessoas que surpreendem pela integridade e é delas que quero falar. Fora os amigos já citados destaco também os vizinhos e os babysitters. Foram eles que muitas vezes cuidaram das crianças. Houve dias, justo no inverno, que o meu marido teve que ir trabalhar e eu acordei sem quase poder me locomover, padeci muito com a polineuropatia. Os nervos das mãos e dos pés foram afetados, com formigamento e dormência nas extremidades, dores como agulhadas nas plantas dos pés, algumas unhas escureceram e caíram. Esse é um efeito colateral infelizmente comum durante a quimioterapia com os taxanos (para quem não entende disso, por favor não se assuste, os efeitos variam muito de pessoa para pessoa!). Muitas vezes não tinha condições de levar minha filha à creche, mas podia deixá-la na vizinha e esperar o dia passar.

Numa hora dessas, caro parente/amigo/vizinho, não basta apoio moral, é hora de agir também. E há que se oferecer de maneira ativa, não ter medo de falar na secretária eletrônica. O que posso fazer por você hoje? Liguei só pra saber como você tá (e realmente escutar com atenção o que o paciente tem a dizer!). É bem diferente de: se precisar liga, tá? Também vale dizer simplesmente: não sei o que dizer, mas gostaria de ajudar. Nunca, de jeito nenhum, insinuar que basta um pouquinho de boa vontade e um sorriso nos lábios "pra superar", que frase besta, oxente! Você tá passando pelo que eu tô passando? Sentindo o que eu tô sentindo? Pode ter certeza, você não tem a menor ideia!

Duas experiências muito marcantes a respeito do poder das palavras. A primeira, quando uma oncologista jovem (e por isso, provavelmente sem filhos), mas já no topo da hierarquia clínica, tentando me convencer a fazer a quimioterapia, disse que as mães com filhos pequenos "não tinham tempo" para sentir grande parte dos efeitos colaterais porque estavam muito atarefadas. Esta frase foi a minha estrela-guia nos primeiros meses de químio, mas aí vieram os taxanos e aprendi que era uma tremenda bobagem (ainda sim reconheço a boa intenção da médica). Tive que jogar fora a fantasia de super-mãe, eu não conseguia levantar do sofá, nem com todo amor do mundo. Uma vez minha filha pediu pra brincar comigo deitada mesmo e eu respondi "olha, vamos ver televisão juntas", pois não conseguia entender nem desenho animado, só tinha força pra ligar e desligar o botão...

Bem diferente foi a minha experiência com Madame R. Quando finalmente decidi encarar a químio, ela teve um ato falho colossal: Ah, que legal, neguinha, dos males você escolheu o pior... Nós duas até hoje ainda rimos dessa pisada na bola, o comentário não podia resumir melhor o espírito da coisa. Numa hora dessas o humor macabro, mesmo que involuntário, ajudou bastante. Como paciente, estou com a anteninha super ligada pra quem me deseja o bem, mesmo falando coisas assim. Aliás, xô pro politicamente correto! Aqui na Alemanha está há meses em cartaz o filme francês Les intouchables/Os intocáveis, que tem como tema central a maneira das pessoas encararem quem é ainda segregado em sociedade, entre eles um paciente tetraplégico (daí a dupla alusão do título) e ele diz, em determinada cena: não preciso que sintam pena de mim.

E vamos ao cinema, ver uma comédia, depois tomar um café e botar a fofoca em dia. Passo em casa e te pego. E aqui mais umas dicas pro pessoal que mora longe ou anda muito atarefado: quando posso te ligar? Estou te mandando esse e-mail/cartão/presentinho, estava pensando em você. Quando melhorar, venha passar um feriadão aqui com a gente, nós cuidamos de você e de sua família.

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