2 de jul. de 2012

Foi um maremoto que entrou em minha vida


Normalmente 11 de março é uma data legal. Meu amigo N faz aniversário, e apesar de ainda estar fazendo muito frio, uma primavera excepcionalmente ensolarada e quente se anunciava aqui no centro da Alemanha. Mas aí nesse dia o Japão ruiu, e eu mal intuía que as imagens de Fukushima que tanto me impressionaram serviriam também como metáfora pro maremoto que ia sacudir a minha vida alguns dias depois. Peraí, tenho retroceder mais alguns meses nessa história, para explicar onde eu estava com alguns dos meus pensamentos, sentimentos e planos então.

Na virada do ano havia me despedido do sonho de ter mais um filho, pelo menos por via natural. Só tive coragem pra encarar a maternidade aos 35 anos, o meu galeguinho M nasceu quando eu tinha 37 e a minha espoleta C quando já ia completar 41!  Essas gestações foram boas e culminaram em partos perfeitos e seres milagrosamente sadios, mas nesse meio tempo tive ainda dois abortos espontâneos, bem sofridos. Aos 44, definitivamente, o ventre não parecia mais disposto a trazer novos frutos, então resolvi colocar o sonho do terceiro filho pra escanteio.

Assim, num dia ainda gelado entre janeiro e fevereiro, tomei um gostoso banho de espuma e fiz meu primeiro e consciente auto-exame dos seios depois de 6 (sim, seis) longos anos amamentando. Esse mais que extenso período de lactação não foi planejado, e a coisa rolou de maneira diferente com as duas crianças: o meu filho sempre se amarrou, se dependesse dele era um peitinho, como ele gostava de chamar, a cada meia hora. Ah, ele é um touro em vitalidade! Já a minha filha só passou a gostar mesmo depois do primeiro ano, e ainda dava um bom descanso de algumas horas entre as mamadas. Como ela era (e é) magrelinha e propensa a doenças respiratórias, resisti tanto tempo.

Não quero fazer apologia da amamentação e só tenho autoridade pra falar da minha família, mas o fato é que essas experiências reforçaram o elo entre nós quatro, sendo o meu marido quem mais queria evitar o leite em pó, desconfiado da indústria alimentícia. Além disso, a gente achava que assim estaria também me protejendo de um remotíssimo câncer de mama, ninguém nunca teve câncer na minha família de origem. Pois é, não funcionou. Mas, estranha coincidência, as duas crianças resolveram parar de mamar na mesma idade, 3 anos e 2 meses.

Se meus seios estavam caídos? Ah, e como! Mas o processo de despencamento já havia começado muito antes, então eu me dizia: um dia vou me dar uma bela plástica de presente, pra compensar tanto esforço e voltar a ficar gostosa. Agora estou juntando coragem para realizar esse projeto em 2013, mas com uma técnica bem mais complicada que um simples levantamento. Como tive que passar por radiação, corro muito risco de rejeição com um implante de prótese. A alternativa é aproveitar o excesso de gordura numa coxa (tenho material suficiente para ficar com uma poitrine escandalosa), com uma técnica chamada TGM/ TUG flap. Serão necessárias pelo menos duas grandes operações, uma para fazer o enxerto e reconstruir a mama direita, outra para igualar a mama esquerda. De quebra ainda “ganho” a lipoaspiração nas coxas, caramba, vou ficar um arraso!

Voltando ao auto-exame do inverno: deu tudo limpo. Porém, no início de março, descobri uma gota de sangue no bojo direito do sutiã.  De início pensei que tivesse origem hormonal, pois a desmamada havia sido relativamente recente, uns 6 meses antes. A gota de sangue persistiu nos dias seguintes, o bico do seio parecia um pouco rachado, comecei a ficar grilada. Liguei pro ginecologista e me deram uma consulta para cinco meses depois. É que sou paciente da rede pública na Alemanha e o tempo "normal" de espera era esse mesmo, pelo menos com esse médico. Outro detalhe, o rastreamento com mamografia só é oferecido aqui a partir dos 50 anos, se você não for uma paciente de risco. Eu era (ter filhos depois dos 35 é um fator de risco) e não sabia. Desencanei e voltei pra teoria da disfunção hormonal.

Tudo corria bem na minha vida então. Depois de uma tentativa frustrada de ir morar em Atenas em 2009/10, tivemos que voltar pra Alemanha devido à crise econômica atual. Foi justamente nesse período que começou a desgringolar tudo pra classe média lá na Grécia, um déjà-vu, pra quem passou uma adolescência angustiante no Brasil dos anos 80. Pessoalmente, comecei a me reaprumar quando pude adiar o retorno ao trabalho na companhia aérea onde tenho um emprego em tempo parcial. Não gosto do que faço, é bem estressante, mas procuro manter o vínculo empregatício para poder continuar voando baratinho com a família.

Como ainda tinha direito ao último ano de licença-maternidade, não remunerada, havia decidido dedicar o ano de 2011 a reatar os meus prazeirosos laços com o ensino do português para adultos. Estava dando 3 cursos nas "universidades populares"/Volkshochschulen, sem contar os alunos particulares. Tinha a perspectiva de duplicar os cursos até o fim do ano, além de poder voltar a ensinar também o espanhol, língua que adoro e que me orgulho de ter estudado, defendendo uma tese de mestrado sobre literatura hispanoamericana.

No sábado, dia 19 de março, Fukushima na cabeça, fui a uma palestra da representante mais ilustre da plataforma comunista do partido "Die Linke", Sahra Wagenknecht. Ela entende de economia como a Maria da Conceição Tavares e a Dilma, e quase deixou de ser minha musa absoluta depois que assumiu o namorado atual, Oskar Lafontaine (é que o conheço de outros carnavais: estudei lá no curral eleitoral dele, me lembro duma campanha em que afirmava que o número imigrantes solicitando asilo político na época, início dos 90, era demasiado alto, e o acho um machote oportunista). Enfim, o amor é cego, Freud pode explicar o que a Sahra vê nele, e eu continuo a votar no partido por causa dela. Sair para ir a uma palestra assim é uma oportunidade raríssima aqui nessa província conservadora, por isso estava bem contente nesse fim de semana. A Sahra foi deslumbrante, mandou ver na crítica da má administração da crise europeia.

No domingo à tarde, 20 de março, estava brincando com a minha filha (
então com 3 anos), vou chamá-la de Espoleta aqui, quando ela sem querer apoiou um cotovelo em cima do seio direito. Foi uma dor forte, coloquei a mão e apalpei um caroço do tamanho de um um grão de arroz, no quadrante superior interno (corresponde a cerca de 15% dos casos de câncer de mama): Alarmstufe rot!!!/Campainhas tocando, alerta máximo!!!

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