1 de jul. de 2012

Gauche na vida


Olá!

Primeiro, antes de me apresentar ao público da blogueesfera, um agradecimento à amiga do (des)peito Madame R, que me encorajou a escrever, e à escritora Rosario Ferré, que com seu ensaio "La cocina de la escritura" me desatou o nó na cabeça. Por tabela, agradeço às suas "evangelistas" de cabeceira, como Rosario chama Virginia Woolf e Simone de Beauvoir, que por sua vez a inspiraram. Ah, não posso deixar de saudar também a minha presidenta Dilma e o companheiro Lula, não apenas porque meu coração sempre bateu à esquerda, mas porque eles também têm conseguido driblar o câncer, esse alien vagabundo que nos aperreia.

Resolvi batizar o blogue assim porque sou apegada a um passado que talvez não tenha existido como o imagino, no entanto ele alimenta minha saudade. Sou malemolente, adoro calor, tapioca e rede, que contradição viver na ultracondicionada, gélida e batatófila Alemanha! Como vim parar aqui? Well, isso é um tema para muitos posts e sessões de psicanálise. Roupa suja se lava no psicanalista, e enquanto procuro uma vaga (os consultórios andam lotados por aqui), vou engomando a minha calça desse jeito.

Enquanto engomo a calça (Ednardo/Climério)

Arrepare não
Mas enquanto engomo a calça eu vou lhe cantar
Uma história bem curtinha fácil de contar
Porque cantar parece com não morrer
É igual a não se esquecer
Que a vida é que tem razão
Esse voar maneiro foi ninguém que me ensinou
Não foi passarinho
Foi olhar do meu amor
Me arrepiou todinho e me eletrizou assim quando olhou meu coração
Ai, mas como é triste
Essa nossa vida de artista
Depois de perder Vilma pra São Paulo
Perder Maria Helena prum dentista

Por que escrevo? Escrevo para não esquecer o português, língua que tento transmitir aos meus filhos e que ensino de vez em quando a alguns adultos, mas quase não tenho como levá-la na coleira pra passear, nos 20 e tantos anos passados no exterior. Atualmente são poucos  os interlocutores que me ajudam a me exprimir aos trancos e barrancos na língua materna.

Escrevo com fins terapêuticos, como processo catártico, para reelaborar meus pensamentos e tentar manter um discurso mais ou menos coerente. Tenho sofrido muita depressão, não só aquela desde a adolescência, senão outro tipo desde que recentemente fui catapultada pra menopausa, sem escalas, durante a quimioterapia. A deprê, pois, tem deitado e rolado nas minhas sinapses, nos últimos meses passei por psicólogos e psicooncologistas, mas o timing e o approach dessas terapias ainda não foram suficientes pra alavancar meu ego cabisbaixo a um nível tolerável.

Escrevo pra me comunicar de maneira experimental, comigo mesma, com meus próximos e com um público ainda indistinto que fala e pensa de um jeito brasileiro, imagino, sem poder definir, neste momento, o que seja isso exatamente. Sobre quais assuntos pretendo divagar, não necessariamente nessa ordem em importância: auto-exílio, 20 anos de vida na Alemanha, minha família trilíngue, câncer de mama, MPB, literatura, política, cinema e algumas drogas leves, como a culinária. 


Por fim, escrevo também porque talvez esse material possa interessar a algum estudioso, um antropólogo, sociólogo, médico ou analista em formação, sei lá. Sou um verdadeiro dinossauro humano depois de tanto tempo vivendo fora do Brasil e minha mente pulula de anacronismos. Tenho um lado meio exibicionista, meio rato de laboratório, ficam então os meus posts à disposição. Nesta semana estarei postando aqui coisas escritas entre maio e junho deste ano, depois vou passar duas semanas de férias na Grécia, estou precisando muito curtir uma sombra e água fresca por lá.

Peço antecipadamente perdão pelos erros de sintaxe, cacofonia ou excesso de barbarismos. Não se trata só de displicência, é provável que entrem aí também umas pitadas de amnésia e demência, alguns dos possíveis e persistentes efeitos colaterais da químio. Em inglês existe o termo chemo brain, já em alemão é tudo taxado de Fatigue, e definitivamente tenho padecido de vários desses efeitos em graus variados. Assim, sempre que der uma mancada, devo alertar que posso sacar, se achar necessário, o poderosíssimo cartão-câncer. Como explica a atriz Márcia Cabrita, no seu divertido blogue Força na Peruca,
(marciacabrita1.blogspot.com), esse cartão funciona como uma espécie de carteirada pros pacientes do ramo, livrando a nossa cara em situações embaraçosas.

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