10 de ago. de 2012

Poliana, uma jovem senhora poliglota, neurótica e polineuropata


O título acima é pura autoironia e se refere ao meu estado físico e psíquico no momento. Estou bastante ansiosa por causa do primeiro encontro com o psicanalista na semana que vem, cruzando os dedos pra encontrar alguém legal que me ajude a recuperar a auto-estima e a redefinir metas. Enquanto espero, vivo dispersivamente e durmo mal, numa contradição entre hiperatividade e exaustão, pirada da batatinha mesmo. 

Ainda bem, uma boa notícia para comemorar. Fui ao meu primeiro controle no Centro da Mama em Heidelbergue, depois de 13 meses. Seguindo as diretrizes atuais que determinam controles periódicos para os pacientes sobreviventes de câncer, fizeram uma mamografia da solitária mama esquerda. O resultado foi um BIRADS 2, o que é bom. A sonografia assinalou alguma besteira inócua na axila esquerda. Passei alguns minutos de tensão até o Oberarzt, o superior de plantão, confirmar com a médica-assistente que não era nada demais. Já na área do peito caolho não encontraram nada suspeito, alles im Grünbereich/como tinha que ser!

No trem de volta pra casa comecei a esboçar o post de hoje. Quero escrever sobre um tema bem complexo, não só na minha mente confusa. Trata-se da definição do conceito de bem-estar para uma sobrevivente de câncer de mama. Como observa Annette Rexrodt von Fircks, é muito difícil uma paciente voltar a afirmar “eu vou bem”, considerada a agressividade não apenas da doença em si, senão do tratamento oncológico como um todo. Annette teve um diagnóstico barra pesada (e um prognóstico de 15% de chances de sobrevida em 5 anos) aos 35 anos, com 3 filhos pequenos. Ela é autora de vários livros de auto-ajuda e criadora de uma fundação com projetos voltados especialmente à reabilitação de pacientes com filhos ainda pequenos: http://www.rvfs.de/

O câncer de mama é um alien arretado te invadindo não se sabe direito por quê nem por onde, um inimigo cuja voracidade provoca batalhas violentas no corpo e na alma do seu hóspede. Então, para elevar as chances de sobrevivência, assinamos um termo de compromisso/informed consent, dispostos a enfrentar longos e dolorosos tratamentos, como químio ou radioterapia, que podem deixar sequelas físicas ou psíquicas por meses, anos ou mesmo para sempre. Vou enumerar alguns dos efeitos colaterais mais frequentes: menopausa precoce, com tudo o que isso implica (depressão, suores, alterações no sono e na libido, secura nas mucosas e dores nas juntas), fatiga, falta de ar, esquecimento, polineuropatia, a lista é interminável, fico só no básico.

Ora, não somos masoquistas, muito pelo contrário, trata-se duma opção consciente, agarrando-nos no que a ciência pode nos oferecer no momento, o que muitas vezes ainda é muito pouco. Portanto, como responder à pergunta de um conhecido que você encontra na rua: Como vai? Ah, tudo bem, eu fui bem ali na sucursal do inferno, mas já estou de volta. Francamente, dá vontade de pular no pescoço do sujeito que não me deixa falar. A maioria das pessoas só espera mesmo um rápido “tudo bem”, o câncer as assusta tanto que você, paciente, acaba tendo que assumir também a função de terapeuta delas, haja saco! 

Eu, da minha parte, cansei. Estou me aperfeiçoando na arte de responder à altura da minha odisseia: ah, estou viva, obrigada. Esta sinceridade é uma maneira de me respeitar. Não me sinto nada bem, ainda carrego uma monte de sequelas, como enumerei num parágrafo acima, sem contar a aparência: penteado de poodle devido à quimio, corpo de baiacu, inchado pelas doses massivas de cortisona, gorda também pela inatividade sofrida com a polineuropatia nos pés, peito caolho à espera de operação plástica com autoenxerto, coisa de dar inveja ao pai de Frankenstein. Ainda assim, acreditem, sou infinitamente grata (GRRRRR!!!) aos impertigados doutores e bilionários laboratórios por ter a chance de poder estar aqui reclamando da vida. Gente, agora só umas piadas do meu grupo de apoio americano pra salvar o astral:

(Copiado de NEDenise, do http://her2support.org)

"You know you're a BC survivor when... you agree to a course of treatment specifically designed to turn you into an overweight, beefy, red-faced, bald guy!"


"You know you're a BC survivor when...you joke about your cancer, and your 'healthy' friends aren't sure whether to laugh along."

(I told them...rule of thumb guys...if I'm laughing...it's okay for you to laugh!!)
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